CONTRASTES

Há algumas semanas fomos surpreendidos em família por uma partida precoce, se vista através de nossos olhos ‘tão humanos e pobres’. Uma menina esperada ansiosamente por seus pais, irmã, avós, e claro, também por todos os demais familiares de maior ou menor proximidade. Viveu apenas doze dias. Para os mais próximos, especialmente os pais, a dor é imensurável; todos os demais ‘voltaram o olhar entristecido’ para aquela dolorosa perda, sem ao menos poder abraçá-los nem tão pouco conhecer a bebezinha.

Em contraste a este fato, recentemente tivemos a oportunidade de comemorar em nossa comunidade, os noventa anos de uma religiosa, que aos dezenove deixou sua família. Dedicou sua vida a órfãos, idosos, crianças, encarcerados, escolares… É de uma lucidez invejável; piedosa em gestos e palavras. Seu andar é lento mas seus passos, firmes. Um encanto por sua serenidade, candura, disponibilidade e sorriso fácil.

Na vida nos deparamos com muitos contrastes: doze dias e noventa anos é apenas um, diante desta passagem breve ou nem tanto, vistos, repito, aos nossos olhos tão humanos.

Uma precoce ou longa permanência nesta vida não significa que esta ou aquela é de maior ou menor importância. Não conseguimos, na maioria das vezes, ‘enxergar’ os propósitos que nos são pre-estabelicidos, ou não, pois temos neste intervalo, a companheira liberdade de escolhas. A pequena menina lutou bravamente passando por duas dolorosas cirurgias. Para a religiosa, filha única, os combates certamente foram gigantes.

Enquanto estivermos por aqui – não por acaso neste tempo e nesta hora – teremos grandes batalhas. São elas que nos tornarão dóceis, afinados, suaves e melhor preparados para o ‘destino final da viagem’…

Que possamos, ao depararmos com o verdadeiro começo – que é logo ali do outro lado – registrar neste tempo, grandes e também pequenos bons feitos. Deixaremos saudade que nada mais é do que a presença do que está ausente, ou quem sabe, a proximidade na distância. Estaremos em paz tal qual a pequena menina, e teremos certamente vencido batalhas, tal qual a admirável religiosa.

nelci maria martins de queiróz

EXCESSOS

Depois de muito tempo pude ver e reconhecer a assinatura de meu pai, entalhada em madeira. Única! Linda! Não era um homem ‘letrado’; frequentou apenas dois anos de vida escolar. Sua letra era belíssima e levemente inclinada para a direita. A saudade intensificou-se. Há três décadas, súbita e precocemente nos deixou, ou seja, ‘voltou para casa’. Um dia todos nós voltaremos. A saudade me fez relembrar muito de seus valiosos e sábios ensinamentos refletidos em palavras e atitudes; mais em atitudes do que em palavras.

Era um homem muito inteligente, amoroso, justo e rígido. Enxergava além de seu tempo porque ‘seu olhar’ voltava-se para o futuro, especialmente quando se tratava de nós, os filhos. Era o mais velho entre seus irmãos e passou por tribulações como qualquer outra pessoa, contudo conseguiu com muito trabalho, que todos os seus sete filhos chegassem ao ensino superior. Motivo de orgulho para nós, frutos de um amor verdadeiro de nossos pais, não muito comum em seu tempo.

Lembro-me claramente de suas palavras, seus conselhos, e também quando nos falava de tudo aquilo que não deveria passar da normalidade: os excessos. “Nada demais é bom”, sempre dizia: muito dinheiro, muito sucesso, nem mesmo muito trabalho… Costumava olhar para nós, as filhas, e dizer que ‘nem amar demais faz bem’ – referindo-se ao relacionamento a dois – porque prejudica aquele que ama exageradamente fazendo-o, muitas vezes, mero servil. Hoje entendo que queria nos poupar, por ter constatado tristes vivências.

Poderia fazer inúmeros e longos relatos deste homem especial que teve o privilegio de encontrar uma grande mulher, e que tivemos a honra de tê-lo como pai. Juntos olhavam para a mesma direção, buscavam os mesmos ideais. Normalmente trazia alguma coisa para nós, ao voltar do trabalho – frutas da época por exemplo – previamente selecionadas; a maior e mais vistosa era oferecida a nossa mãe, e as demais igualmente repartidas e distribuídas. Viveu para a família. Fez diferente daquilo que viveu, e a diferença nas nossas vidas.

Ele tinha muitos excessos: de amor paternal e familiar, de honestidade, zelo, fé, compaixão, temor a Deus… e tantos outros. Hoje, mais amadurecida e saudosamente ‘olhando para trás’, pela família que tivemos, e também para aquela que constituímos, vejo o quão felizes nós éramos e somos, reflexos desse pai excessivamente exagerado nos bons excessos da vida.

nelci maria martins de queiróz

FORÇA DA SOLIDÃO

Em isolamento social e na metade da tarde de um domingo incomum: “quando tudo parecia ser o fim, na verdade era só o começo” e ainda “por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive?”. A emoção, comum neste período e em especial nesta data – Páscoa – foi intensificada ao ler uma carta de apresentação publicada em minha comunidade, pelas mídias sociais, justamente pelo fato da não proximidade. Nela senti-me duplamente incluída porque falava de todos: das crianças aos idosos, e também daqueles que vivem sozinhos, mensurando a força da solidão. Junto a essa emoção, confesso, misturava-se um desolamento pela ausência, nunca antes vivida, neste tempo tão favorável à convivência familiar.

A solidão tem aspectos peculiares. Não representa apenas ausência de pessoas ou falta de pertencimento ao mundo ou, ainda, um vazio existencial; muitos de nós podemos estar rodeados de pessoas com as quais estamos acostumados a conviver, e sentirmo-nos sozinhos. Assim, nem sempre é negativa e esses momentos serão bem vindos, porque deles seremos capazes de retirar uma força grandiosa vinda de nosso interior. Somente sozinhos entre paredes, ou paradoxalmante em meio à multidão, conseguiremos arrancar de nossa alma as maiores preces e clamores, bem como os maiores agradecimentos, que nos tornarão mais próximos do Criador e de suas criaturas.

Devemos desenvolver a capacidade de ‘povoar’ a solidão e conquistarmos um grau um pouco mais elevado de interiorização, contemplação e conhecimento de nós mesmos. Desta postura brotará a imensa força da solidão registrada em recomeçar, no desfazer de “nós apertados” e de conflitos interiores, partilhar, disponibilizar-se, entre tantas outras coisas tão preciosas, que farão de cada aparente solitário, um potencial ouvinte de todos os silenciosos brados que o rodeiam, prontamente.

Alguém escreveu – “solidão: um bom lugar de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada”. Dessas visitas, e não da morada, fecundará a extraordinária força da solidão!

nelci maria martins de queiróz

UMA PAUSA

Não se fala em outra coisa. Qualquer que seja o meio de comunicação – escrito ou falado – o assunto é o mesmo: covid-19 ou coronavírus. Lemos e ouvimos alguns absurdos, mas também coisas interessantes. Aproveitadores lançam notícias falsas que desinformam, prejudicam pessoas ou grupos, apavoram alguns, desestabilizam emocionalmente outros, e pior que isso, espalham-se rapidamente; viralizam. À medida que a contaminação avança no mundo, continentes se preparam e vão ficando paralisados, ou quase. Nossos governantes vão montando táticas para nossa proteção: escolas, universidades e até mesmo o comércio vazios; esclarecimentos quanto à higienização e aglomerações e novas estratégias econômicas; templos com portas fechadas, shopping centers, cinemas, estádios de futebol, teatros… tudo descontinuado.

Chegou um novo tempo; tempo para uma pausa: no trabalho, no bairro, na cidade, no planeta… e na alma. Ah! A nossa alma! Como precisa de uma pausa! Pausa que nos fará crescer, amadurecer e enxergar o mundo com outro olhar; o olhar silencioso que vem da alma.

O que mais vemos e ouvimos no momento: ‘fique em casa’. A nossa casa é, e sempre será um lugar sagrado, independente de sua estrutura, aparência ou conforto. Nela estão as pessoas a quem mais amamos, a nossa segurança, o nosso refúgio. Para lá corremos quando aparecem os temporais de quaisquer intensidades. Nela temos o privilégio de escolher a quem receberemos; nela encontramos sossego… podemos descansar…e até entrar em ‘deserto’ nesse tempo quaresmal… nela as nossas dores e doenças se tornarão menores.

Chegou um novo tempo; tempo de generosidade, partilha, compaixão; em especial com aqueles que precisam do trabalho que já não encontram, para o sustento dos seus.

Estamos apressados demais e nem sempre sabemos aonde iremos chegar. Que, de todas as pausas necessárias em nossas vidas, especialmente agora, sejam para nos tornarmos melhores; serenamente; em paz. Ao findar estejamos fortalecidos, e com uma capacidade imensa de amar e partilhar… e continuar.

Nesta tão bem vinda pausa, e muitas outras que tivermos a oportunidade de encontrar, possamos, com o olhar da alma, redescobrir a maravilha e a magia da proximidade, e somente agradecer pois, quietudes e pausas sempre serão bem vindas e necessárias.

nelci maria martins de queiróz

TROCA DE FELICIDADE

Para nós católicos é comum o ir e vir de nossos sacerdotes. Ficamos entristecidos com a partida de alguns, porém nosso coração de enche de alegria com a chegada de outros. Essas mudanças são necessárias porque, ‘embora venham do povo, não devem criar raízes’; precisam estar sempre, cá e lá, a serviço de Deus com acolhimento, escuta, perdão, orientação… conduzindo almas à santidade. Todos, sem exceção, passam a fazer parte de nossas vidas e da vida de nossa comunidade.

Recentemente nos alegramos com a chegada de um jovem, prestes a receber a Ordenação Presbiteral. Um grande homem com características de menino: magro, inteligente, de estatura mediana, olhos claros e olhar curioso, gestos de mansidão e disponíbilidade… entre tantas outras qualidades. Com o passar de alguns meses, tornou-se, para nossa felicidade, um sacerdote. A missão que recebeu ao dizer sem sim precioso, todos já conhecemos: “o padre, por vezes, é o próprio Deus”, como bem dizia São João Batista Maria Vianney.

Há poucos dias, com a Igreja repleta, comemoramos o seu primeiro ano de Sacerdócio. Após a grande Celebração Eucarística, nos reunimos no salão paroquial onde aconteceu a bela confraternização. Muito carinho envolvido em reciprocidade. Simples troca de felicidade entre todos os membros da sua grande e primeira família do povo de Deus, com todas as suas diferenças e peculiaridades. Um sucesso!

Fisicamente, após esse espaço de tempo, ele em nada modificou. Espiritualmente, agigantou-se. Sempre com trajes impecáveis: seja com roupa social, com batina – o que é também comum em seu dia a dia – ou com vestimentas que o diferencia quando no exercício de seu Ministério. Estes, por sinal, belíssimos! Entre abraços e muitos presentes – fraldas geriátricas a serem doadas – seu olhar brilhava ainda mais; simples troca de felicidade, entre todos de sua ‘primeira família’. Muitas ainda virão! Embora esteja no ínicio de sua missão, já identificamos característica que garantem o sucesso de seu valioso ministério. Em breve, por ser também advogado, será Mestre em Direito Canônico, para ajudar ainda mais a nossa Igreja.

Do fundo do coração desejamos que, por onde passar, seja sempre seduzido pela Luz do Espírito Santo, arrastando muitas almas para o céu; que possa, a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, curar feridas, paralisias e cegueiras, com compaixão; que a maior entre todas as mulheres, Nossa Mãe Santíssima, esteja sempre a protegê-lo envolvendo-o com seu Manto cheio de amor. E, no “declinar de sua vida, que possa, ao olhar para trás, perceber o quão feliz foi entre nós”, porque amou e foi muito amado; afinal… “do primeiro amor a gente nunca esquece”…

nelci maria martins de queiróz

LEVEZA

Outrora uma linha férrea contornava nosso município. Hoje, separa alguns bairros que foram surgindo com o tempo. Para chegarmos a eles, evidentemente temos que atravessá-la em vários pontos. Num deles, após a travessia em declíneo, pode-se virar para esquerda, direita ou seguir em frente. Não há sinalização e nem tão pouco, espaço para acostamento.

Ao aproximar-me, recentemente, pude presenciar algo inusitável: dois ciclistas estavam passando pelo declínio e havia carros vindo em várias direções. Sem saber o que fazer, o que estava na frente freou sua bicicleta e, o seguinte, muito próximo, embora tenha feito o mesmo, bateu no pneu traseiro da outra. O primeiro era um senhor negro de meia idade e o segundo também negro e mais jovem. Os dois usavam boné. O senhor de meia idade levou um susto enorme, virou-se totalmente desequilibrado e desferiu palavrões e ofensas. O segundo já com os pés no chão apenas ouviu. Após a passagem de alguns carros, motos e transporte de escolares, o primeiro seguiu em frente enquanto o outro virou para a direita. Deduzi que estavam a caminho de casa por ser horário de almoço.

Ao passar pelo mais jovem, nos olhamos; ele apenas esboçou um largo sorriso. Entendi sua atitude: não há necessidade de revidar a um xingamento. Acredito que a ação daquele homem foi um reflexo por causa do enorme susto que levou. Penso que, mais que ninguém, aquele jovem compreendeu aquela ação e mostrou respeito; conhecendo-o ou não.

Comumente não é isso que encontramos por aí! Atitudes assim não dão ibope nos noticiários. Normalmente ocorreria, no mínimo, uma calorosa discussão e uma inimizade, como acontece com motoristas estressados em trânsito intenso. Temos conhecimento das tristes estatísticas de mortes, ‘por nada’.

Para os que viram a cena foi cômico demais; para mim não foi diferente, porém tive o privilégio de presencear aquele belo e largo sorriso… motivo de reflexão.

O respeito pelo outro, como o daquele rapaz, seu bom humor e paciência, podem servir de lição para que possamos viver com maior leveza, deixando nossa vida mais prazerosa e feliz.

nelci maria martins de queiróz

VALEI-ME!!!

Dificilmente preciso ir ao supermercado além daquele dia previamente programado. Naquela metade da manhã porém, por esquecimento, precisava de apenas um produto. Fui então ao mais próximo de minha casa. Rapidamente passei pelo caixa e ao sair percebi – e qualquer pessoa perceberia – uma senhora negra com umas três ou quatro sacolas pequenas nas mãos. Sorriso largo, roupa vermelha, cabelos curtos e, em alto e bom tom, e de uma maneira peculiar, dizendo: “valei-me meu santo protetor”!!! Nos olhamos e, achando a frase muito engraçada, troquei com ela algumas palavras. Disse-lhe que já tinha ouvido pedido de socorro ao santo protetor com a citação do nome, mas ela não havia mencionado nenhum. Com sorriso mais largo ainda e me chamando de minha filha disse que “com os preços tão altos que encontramos, a gente até esquece o nome do santo”. Gargalhamos. A bem da verdade ela havia passado pelo caixa em que passei, e não tendo o dinheiro suficiente, deixou de levar algumas coisas; poucas.

Ah! Como gostei daquela senhora de meia idade. Simpática, alegre, descontraída… mesmo tendo que selecionar e deixar para trás alguns produtos, ali mesmo no caixa do supermercado. Ela fez-me ‘enxergar’ quão leve pode ser a vida se encarada com alegria e positivismo. Fez-me perceber que quando a alegria está dentro de nós, traz um grande bem para nossa alma, nosso corpo, para nossa vida…

Este rápido episódio fez-me recordar o que escreveu Ferreira Gullar : “Como um tempo de alegria, por trás do terror me acena,… E a noite carrega o dia, no seu colo de açucena… Sei que a vida vale a pena… mesmo que o pão seja caro e a liberdade, pequena…”

Diante deste pequeno texto, profundo, poético e verdadeiro, eu só posso acrescentar: valei-me meu santo protetor !!!…

nelci maria martins de queiróz

ORAÇÕES, FLORES E VELAS

Após o Dia de Finados, retornamos ao cemitério. Estávamos em três e procurávamos por uma lápide que ainda não havíamos visitado. Outras pessoas também faziam o mesmo. Nos encontravámos na parte mais alta chamada de ‘parte nova’ que, por sinal, cresceu muito em um curto espaço de tempo. As condições estão precárias, pois o asfalto tornou-se pedregulho solto e irregular, que muito dificulta a locomoção. Embora decorresse o período da manhã, o calor naquele domingo era muito intenso, o céu sem nenhuma nuven e não havia vento algum. O acesso pode ser feito também de carro através de um enorme portão, porque há uma rua que atravessa o local de um lado a outro, separando esta da outra chamada ‘parte velha’.

Após idas e vindas pudemos observar um carro branco que estacionou e dele desceram várias pessoas; entre elas uma idosa senhora. Trajava-se discretamente, tinha cabelos lisos e usava óculos. Amparada, sentou-se em uma sepultura – a mais próxima possível – na sombra, enquanto os demais saíram para várias direções com flores e velas. Aquela senhora trazia nas mãos um terço e, sozinha, pôs – se a rezar piedosamente. Sem poder caminhar com firmeza, ali estava, seguindo uma tradição que vem desde o Século II: visita, flores e velas para lembrar e rezar pelos entes queridos que já não mais estão entre nós.

Ao longo de nossas vidas podemos e devemos seguir costumes, princípios e valores. Aquela senhora, com dificuldades, fez aquilo que estava dentro de suas possibilidades. Fugindo do tumulto causado pela concentração de muitas pessoas, veio no dia seguinte. Preferiu estar naquele local, ao menos para rezar. Bela atitude. Belo exemplo.

No decorrer de nossa passagem por aqui – especialmente no declinar de nossa vida como aquela idosa – e, ‘olhando para trás’, podemos perceber quão grande é o número de pessoas que já se foram, e que fizeram parte de nossa convivência, de nosso bem querer; que estiveram tão intimamente ligadas a nós e pelas quais devemos rezar.

Que possamos neste tempo especial, estarmos cheios de gratidão a elas, e nunca nos esquecermos de clamar a todas a misericórdia para que, estando junto a Deus, possam interceder por todos nós. Amanhã, com orações, flores e velas, outros clamarão por nós.

nelci maria martins de queiróz

ENCANTAMENTO

Amanhecer é recomeçar e, naquele dia, não foi diferente especialmente porque o cantar de pássaros era intenso. Acostumada com essa sinfonia naquela hora e também naquele local, seguia com serenidade. Repentinamente, ouvi batidas contínuas vinda de algum lugar não muito distante. Imediatamente parei para procurá-las. Olhando para o alto e para várias direções, localizei uma enorme árvore que não resistiu ao último inverno. Ela perdeu as folhas no outono e ‘já cansada’, não revigorou.

Quão grande foi minha surpresa ao visualizar em seu tronco mais grosso, um pica-pau-de-topete-vermelho. Paralisada de encantamento pude observá-lo até que alçou voo rápido, rasante e bem perto de mim; privilégio único por ser a primeira vez com tanta proximidade. Acompanhei-o com olhar, e então, desapareceu entre as copas verdejantes de outras árvores. Belíssimo!!!

Essa espécie tem por hábito, além de construir ninhos no alto, abrir fendas em troncos de árvores mortas, das quais retiram ovos de insetos que lhes servem de alimento. O barulho é peculiar e o “trabalho”, forte e veloz. Seu bico é longo e duro; sua cabeça é adaptada para essas batidas intensas. Suas cores ‘vivas’ encantam pelo realce entre o preto do corpo, o vermelho vivo do topete e as listas brancas.

Em um pequeno espaço de tempo pude perceber dois grandes contrastes: a árvore morta favorecendo a vida, e o grande vigor da pequena e deslumbrante ave.

Singelos detalhes que nos rodeiam e que, não passando despercebidos, podem ajudar para que nosso dia se torne ainda melhor, especialmente quando percebemos, nos encantamos e principalmente somos gratos ao autor da beleza das criaturas…

nelci maria martins de queiróz