Olhar do alto

Quantas pessoas moram ou trabalham em grandes edifícios. Um dia desses também estive em um deles. Fui apenas acompanhar familiares que precisavam estar lá. O tempo estava fechado. Uma neblina intensa suavemente ia se dissipando. O sol permaneceu tímido e, só bem mais tarde, se intensificou. Era dezembro com calor forte. Quando a neblina foi embora totalmente, me aproximei da imensa janela do edifício e comecei a observar lá de cima, do alto. Retraída. Confesso que nem sempre me sinto bem, pois a altura não é, para mim, tão agradável.

Ao olhar lá do alto sabemos que o que vemos não está em tamanho real.  Mal conseguimos identificar os tipos de carros por exemplo, e as pessoas se tornam muito pequenas, como formigas. Nós não a reconhecemos. Assim serão sempre as imagens quando o nosso olhar for lá do alto.

Em nossa vida, se ‘olharmos sempre do alto’, as pessoas, principalmente, serão sempre muito diferentes. À distância, o outro diminui sensivelmente; é apenas mais um no ‘imenso formigueiro’.

Olhar do alto deveria ser apenas através das janelas de grandes edifícios e, nunca, ‘um olhar do alto’ no mesmo nível daqueles que caminham conosco. Se olharmos para quem está ao nosso lado, de cima para baixo, não importa quem seja, será sempre diminuído de sua real grandeza. Nós o veremos muito pequeno.  Quando só sabemos olhar do alto, o outro se tornará tão insignificante que passará despercebido, e nós, falsamente acreditaremos em nossa superior importância.  

Quando éramos pequenos só sabíamos olhar para cima.  Enxergávamos nosso pai, nossa mãe, nossos avós que, pela nossa pequena estatura, pareciam-nos enormes. Hoje, já crescidos – e tomara que amadurecidos –  devemos considerar que nosso olhar arrogante nos denuncia e que, por outro lado, um olhar contagiante não tem preço.

Devemos olhar para o outro, e com ele caminhar, combinando a direção e a velocidade para que não estejamos muito a frente ou muito atrás, ou de repente, cada um para um lado diferente. Caminhar com o outro não combina com olhar de superioridade. Se isso acontecer nossas emoções ficarão fragilizadas; terão efeitos ruins que poderão mudar a direção desse caminhar ao lado. Só as boas emoções deveriam deixar marcas em nós, pois todo o caminhar, um dia, vai terminar. Quando o   caminho termina para um, para o outro estará sempre começando…

Importante então que, nesse ir e estar com o outro, tenhamos sempre grandes e boas emoções. Se estamos acostumados a olhar sempre do alto, (não falo dos grandes edifícios) deveríamos investir mais em nosso olhar. Deveríamos olhar do alto as coisas que nos levarão a descansar e muito amar; que nos tornarão pessoas melhores ao trilharmos novos horizontes, sem perdermos a percepção do ‘além do horizonte’.  

No alto está tudo o que realmente precisamos. As coisas terrenas nos são sim necessárias, mas não são suficientes para nos fazer verdadeiramente felizes. É preciso deixar de olhar para nós mesmos. O foco deverá ser sempre o olhar, não do alto mas, para o alto.

Que tenhamos sempre a pequenez e a simplicidade de uma criança ao olharmos para o alto e nos depararmos com grandiosidade do Pai. E assim, convencidos desta grandeza ímpar, por atos e atitudes, e não por belas palavras, clamemos que Ele nos deixe enxergar, com os limites de nossa visão, apenas a grandeza daqueles que caminham ao nosso lado.
nelci maria martins de queiroz

7 comentários em “Olhar do alto

  1. Somos formigas adestradas para competir umas com as outras. Onde o olhar do alto para menosprezar é a lei.
    Sair deste adestramento, requer coragem, pois como qualquer pessoa que foge da regra, será punida.
    Olhar para o outro é o que faz ele existir, sem o outro, nos nao existirmos, precisamos do outro, uma pena que as vezes isso é esquecido.
    Minha esperança é que textos como este façam as pessoas a quebrar este adestramento que só nos faz mal. Vamos olhar para o outro e confiar.

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  2. Quiçá todos nós que um dia olhamos o outro do alto e o fizemos sofrer por isso, nos conscientizássemos e num relance de humildade e maior idade, com certeza, nos redimíssimos. A mudança de atitude vem da alma. Assim nossos erros seriam como o vento que num sopro, vem e vai. Linda reflexão Nelci! Grande abraço.

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