ATITUDE INCOMUM

Em um silêncio tranquilo aguardava, com antecedência, por uma Celebração Eucarística no Santuário no qual participo. Ela acontece na primeira quarta-feira de cada mês e é votiva aos fiéis defuntos, ou seja, especialmente voltada para aqueles que já não se encontram mais entre nós – pelos quais devemos rezar – e que estão ‘logo ali do outro lado’, no coração de Deus. Coincidentemente naquela noite, rezaríamos também pelo sétimo dia de passamento de três pessoas.

Pude observar – por estarmos em poucas pessoas naquele momento – no último banco da Igreja, um senhor que não me pareceu familiar, como aqueles com os quais costumeiramente nos deparamos. Alto, magro, negro, usando terno e vestiando-se todo de preto; refiro-me também à camisa e sapatos. Segurava nas mãos um chapéu de feltro marron escuro, daqueles quase em desuso. Seus cabelos, em contraste, eram totalmente grisalhos. Aparentava ter mais de oitenta anos.

Num determinado momento e com baixo tom de voz, aproximou-se com serenidade e muita delicadeza, a fim de certificar-se de uma das intenções de sétimo dia. Confirmando, perguntei se tinha parentesco com aquela pessoa quando, com surpresa, pude ouvir: “ele era meu grande amigo”! Só então, emocionada, compreendi o motivo de seu traje e silêncio, que retratavam ausência e prece. Outrora tais atitudes eram habituais em se tratando de perdas de pessoas queridas. Ele aproveitou também para pedir que fosse mencionado, como intenção naquela noite, “meu papai e minha mamãe”, citando os nomes. Comovente e encantador.

Não é comum encontrarmos tais condutas expressas em comportamento tão peculiar! Ao longo de nossas vidas, valores e práticas se modificam, e quando com elas nos deparamos, voltamos a experimentá-las e a revivê-las, saudosamente. Aquele homem, com traje e atitude incomun, comprovou – ao menos para mim – que ainda existem velhos, fiéis e grandes companheiros que externam, como no passado, profunda tristeza. Não estou afirmando que hoje não a sintamos; apenas nossa maneira de externá-las é que mudou.

Em um verdadeiro ritual, naquela noite em que a igreja ficou superlotada, pude testemunhar o amor afetuoso de um amigo fiel. Sozinho, em silêncio e visivelmente expressando pesar, lá estava ele no último banco. Uma verdadeira lição de vida e bem querer retratada em imagens que jamais esquecerei. Lindo demais para nosso tempo onde sentimentos deixaram de ser refletidos em atitudes, e muitas vezes, apenas substituídos por uma mensagem de aplicativos. Hoje, por poder presenciar atitude tão incomum, o privilégio foi todo meu.

nelci maria martins de queiroz

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O CAIR DAS FOLHAS

Num dia desses por aí, de um local um pouco mais elevado, pude ter o privilégio de observar uma octagenária árvore de grande porte. Ela recebera, naquela calma manhã com brisa suave, um repentino e impetuoso vento. Imediatamente respondeu de uma maneira muito peculiar, derrubando uma razoável quantidade de enormes folhas secas e outras apenas amareladas. Todas foram carregadas para a mesma direção; evidentemente, algumas para mais perto e no gramado, mas a maioria arrastada para bem mais longe. Uma verdadeira “dança de folhas”, com barulho agradável. Amei. Respirei fundo cheia de gratidão, e apenas contemplei a naturalidade daquele bailado, porque estamos em pleno outono.

Como é bom seguirmos um fluxo natural! Nele estão incluídos muitas “quedas de folhas”, amareladas ou já secas, pequenas ou grandes, nos outonos pelos quais passamos e ainda passaremos…

Devemos estar preparados – mas talvez nunca estejamos – porque não sabemos a impetuosidade, nem mesmo a direção dos ventos que receberemos. Poderá acontecer que recebamos intensos vendavais, que não levarão apenas as tão amareladas folhas… O que não poderá acontecer, é que deixemos que sejam arrancadas e arrastadas, as nossas raízes… assim ficará quase impossível um novo revigorar.

Nunca nos esqueçamos que, para cada folha que cair, haverá certamente, ocultado nas entranhas do velho tronco, um novo brotar…. um recomeçar…

nelci maria martins de queiróz

TERMINEI COM O VINHO

O inverno ainda não havia oficialmente começado, mas a temperatura estava baixa naquela manhã de domingo, com sol e o céu azul. Encontrava-se comigo apenas uma de minhas irmãs e aguardávamos a chegada de mais alguns familiares. Nesta espera, mais uma vez olhei para o que restou do “velho vinho”. Ali, ele me aguardava por mais de dois anos. Quase três. Tempo em que sinto ausência e longura embora saiba que, minha fiel companhia, se encontra logo ali do outro lado, e em plena paz.

Costumávamos saborear dessa bebida enquanto, ‘dividindo a cozinha’, preparávamos o almoço. Eu, na verdade, tomava em um pequeno cálice; bem pequeno mesmo – mal comporta trinta ml e nem é próprio para vinho – apenas por companheirismo. Uma das tantas particularidades tão singelas que, hoje, grandiosa e finalmente superada, porque terminei com o que restou e, novamente, apenas por companhia. Usando o mesmo cálice, consumi devagar as duas últimas medidas, por nós dois, com mistura de alegrias e tristezas; se é que isto é possível.

Assim é a nossa vida. Cada dia uma nova superação. Muita gratidão. Um novo recomeçar.

Com nossos medos, superações e inquietações deixaremos por aqui – ao tempo de Deus – tudo; porque tudo passa; e passaremos para a plenitude, com toda a história que carregamos, e com as relações verdadeiras de amor: estas, acompanhar-nos-ão para a eternidade.

Não somos insubistituíveis, porém, seria bom que pudéssemos terminar tudo aquilo que começarmos – aqui não falo do vinho – mas, se isso não for possível, que não ‘se perturbe’ o nosso coração nem a nossa alma; meramente, em qualquer tempo, seja qual for o dia da semana, alguém ou alguns, por nós o fará….

nelci maria martins de queiróz

CONSTATAÇÕES

Nem sempre vamos aonde queremos; às vezes somos conduzidos, para o nosso bem, e para o bem daqueles a quem amamos em reciprocidade. A necessidade me fez estar em um centro de referência em saúde, em um município não muito distante do meu.

Logo na chegada assustei-me com a quantidade de pessoas em uma enorme fila – embora não tenha sido esta a primeira vez que lá estive; por sorte ela andava rápido graças à competência e gentileza da jovem que distribuía as senhas para as várias especificidades. Em pouco tempo, o espaçoso local tornou-se pequeno para abrigar a todos que ali se encontravam. Rapidamente estávamos apertados, porém, a eficiência do encaminhamento para outros andares e subsolo, fez com que ficássemos um pouco mais confortáveis, num curto espaço de tempo. O local é acolhedor, moderno e muito limpo. A presença de voluntários traz alento porque nos faz acreditar na partilha com generosidade. O tráfego de ambulâncias bem como de carros particulares que se aproximavam da entrada, era intenso naquele começo de manhã.

Quando estamos em espera, mais facilmente nos tornamos grandes observadores, até porque não conhecemos os que estão ao redor; nos deparamos com muitas particularidades que favorecem para, reflexivamente, fazermos constatações. Situações que nos enchem de compaixão ao olharmos para outros e também a nós mesmos, e percebermos o quão frágeis somos diante da vida sem saúde. Talvez crianças e idosos mexam mais conosco por estarem começando ou terminando uma ‘jornada’. A criança por ainda ter – ao nosso modo de ver tão humano e efêmero – ‘uma vida pela frente’ e, ao idoso por ter alcançado longevidade com tantos desafios já enfrentados, e ainda precisando vencer barreiras com dificuldades. No meio desses, todos os demais: jovens, não tão jovens, maduros… outros ainda portadores de deficiências além dessa especificamente. Apenas constatações.

Como é a vida! Crianças e idosos sendo conduzidos pela mão: ora por seus pais, ora por seus filhos. No colo, em cadeiras de rodas ou macas. Acompanhados – é uma exigência – porém fragilizados, vulneráveis, entristecidos tanto quanto a maioria por ali. Sem cabelos ou com curativos visíveis, e outros ainda, com ‘bolsas coletoras’… Corpos visivelmente abatidos, expressando tristeza, desolação, desesperança… Meras constatações…

Pude ouvir palavras de alento relacionadas à fé, e entre tantas conversas, engraçadas ou não, uma ‘jovem idosa’ dizendo em tom alto de voz, que temos que passear, fazer visitas, conviver em família porque “a hora que o sino tocar, é chegada a hora”. Constatei impaciências – nem sempre vindas do doente – muito trabalho eficiente, muito voluntariado, muita dor… porém, não podemos ‘espiar a alma’ daqueles que nos rodeiam, e que podem estar experimentando os mais variados tipos de sentimentos. Simples constatações.

Diante de tudo isto, nos deparamos também com alguns que saem sorridentes por terem, como eu, recebido boas notícias. Recomeçando. Cheios de gratidão e esperança.

A constatação não deixa de ser uma ‘boa ferramenta’ para nos tornarmos mais generosos. Melhores. Por que não?

nelci maria martins de queiróz